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terça-feira, 27 de maio de 2008

Isabella, aviãozinho do papai

Esse é o título de uma das comunidades encontradas num site de relacionamentos no Brasil. Com mais de 1000 participantes esta tornou-se popular ao definir o caso Nardoni como o substituto do Big Bhother Brasil 8.
O referido caso alcançou proporções espantosas na imprensa, e uma das questões mais debatidas é o porquê de tamanha dimensão dada a tal caso. Entrevistas, especulações e diversos outras estratégias já foram e continuam sendo desenvolvidas no intuito de elucidar esse questionamento.
Outros crimes também adquiriram proporções gigantescas, como o caso Richthofen, ou o do menino Hélio. Há quem diga que o diferencial do Isabella Nardoni é o grau da atrocidade potencialmente cometida pelo principal suspeito do crime: o pai da criança. Mas será mesmo essa a razão do boom provocado pela mídia no que se refere não somente a esse, mas a tantos outros casos análogos?
Há os que afirmam ainda que a maior parte dos crimes grotescos só ganham expansão na imprensa se tratarem-se de indivíduos burgueses, integrantes de classe média alta das principais regiões do Brasil, e, para fundamentar seus argumentos, elencam casos como os já citados.
Outra explicação sustenta-se na consensual idéia de que a imprensa trabalha tão somente em cima do que lhe proporciona audiência, mas isso é o que, no jargão jornalístico, chamam imprensa marrom.
Vivemos mesmo numa sociedade atravancada por sangue-sugas, parasitas de tragédias alheias?
Indagações e especulações à parte, independente dos motivos que provocam a supervalorização de bizarrices, tornado-as notícias sensacionais, é possível inferir o quão a mídia pode ser cruel. A apelação relega a análise e reflexões acerca da notícia pautada, buscando atingir o emocional do público.
Desde sentimentos de condescendência à indignação popular, passando pela troça e até mesmo pela indiferença muitas vezes a mídia articula e manipula a informação. A comicidade na apresentação de tragédias veiculadas nos meios de comunicação torna lúdicas as notícias. A descrição da comunidade referida no início do texto zomba da tragédia Nardoni.
Diversos filósofos já se debruçaram sobre a temática do poder midiático e a famosa “imparcialidade da imprensa”. Então, o que temos? Uma infinidade de dúvidas de ordem sócio-econômica, religiosa e cultural entrecortadas por incontáveis teorias acerca dessas mesmas dúvidas.
Francis Bacon, no século XVI afirmou: “informação é poder”, à época do festival de Woodstock consagrou-se a célebre “sexo drogas e rock and rool”, Em fases diametralmente distintas, ambas fazem atribuições sobre a mola propulsora do mundo: o poder.
A máxima do filósofo inglês, apresenta a dimensão alcançada pelo domínio da informação, a seguinte, que já caiu em domínio público, indica o tripé do mundo: sexo, atrelado ao amor; drogas que representam o poder e rock and roll - dinheiro.
De “quarto poder” à simplesmente poder, a mídia, no decorrer dos tempos acompanhou o processo evolutivo da sociedade, tornando-se, ‘‘eco-protagonista’’ da vontade popular. ‘Protagonista’ por figurar ao centro e ‘eco’ por fazer ressoar os ocultos desejos sociais.
E numa sociedade inteiramente dilaceradora de emoções, irremediavelmente viciada no sofrimento alheio, a mídia faz ponte entre a crueza da realidade e o universo fantasioso das mentes humanas. A imparcialidade jornalística dá lugar à produção mercadológica.
Se a poesia pudesse explicar, diria então que talvez tudo isso ocorra porque a cada dia se reserva sua própria dor, ou, como literou Márcia Frazão, porque somente a dor é socialista.

1 comentários:

Arnaud disse...

Devo, em primeiro lugar, ressaltar a qualidade do texto apresentado.De outra banda, acentuo também a intensa cuiriosidade que paira acerca do signinificado de casos tão catastróficos venderem tanto, por que esse fascínio pela dor alheia?Sem dúvida esta é uma indagação que ecoará muito a clamar por uma resposta que satisfaça.

Um abraço à tão talentosa escritora.

Fábio Arnaud - Advogado - Picos-PI.