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domingo, 13 de dezembro de 2009

Saudade das rosas

Mais uma noite, de novo algumas doses a mais e, outra vez, o insistente cheiro de rosas impregnou-lhe as narinas e a fez lembrar não sabia bem o quê. Era um cheiro doce, meio mórbido, parecendo rosas de um jardim esquecido pelos lânguidos e recôndidos labirintos da memória.

Há alguns anos existia um quintal, e nesse quintal existia um jardim, nesse jardim existiam flores, dentre essas flores haviam rosas. Rosas brancas, rosas vermelhas, rosas cor-de-rosa. Dessas rosas exalava um perfume que inspirava sedução e romantismo. Sentindo aquele aroma era possível entender porque aquelas flores haviam sido eleitas à representantes dos amantes e enamorados. Elas eram belas e perigosas, como nós, perfumadas e efêmeras, como os seres humanos, delicadas e cheias de espinhos como as gentes.

De todas as espécies de flores era, sem dúvida, a mais bela. Sua saudade, pois, era das rosas.

Chegando em casa, meio cansada, um tanto deprimida, apática e sedenta por novos rumos, o cheiro das rosas a invadir-lhe as faces manchadas de maquiagem borrada e ainda meladas pelo suor da noite suja.

Sentia saudade das rosas.

Elas existiam com toda representatividade e com todo simbolismo das lembranças mais tenras e doces de uma infância sonhadora e curiosa.

Por que a chama do fogo às vezes é amarela, outras vezes é azul? Por que na lua existem crateras? Por que os peixes do fundo do oceano são tão feios? Quem foi Sai Baba?? Essas e outras eram as perguntas constantes na cabeça da criança, e sempre que tinha essas dúvidas ela pesquisava, e pensava, e queria saber, e tentava descobrir a verdade. Para refletir sobre todas essas coisas só mesmo um lugar tranqüilo, com silêncio, e cuja atmosfera transpirasse a essência da compreensão. Era necessário ter cumplicidade, preferencialmente de outros curiosos que não lhe dissesse o quanto suas perguntas eram tolas. Essas parceiras de elucubrações eram as rosas. Elas eram fiéis, companheiras e boas confidentes.

E ficava ali, pensando em suas curiosidades, refletindo sobre o que havia lido em livros de Ciências, daquelas coleções que se constituíam verdadeiros compêndios de quase tudo no mundo.

Uma vez, depois de tanto ler, entendeu que poderia descobrir mais, e foi compartilhar com elas, amigas, suas amigas. As flores, então, exalaram um tão forte perfume que ela se sentiu inebriada, quase como as vítimas do perfumista de Patrick Suskind.

Mas o tempo, cruel como tem sido todos os anos em todas as vidas, passou. Foi embora lhe roubando as rosas, suas companheiras de incríveis descobertas. Tinham tantas cores, eram tão belas, tão meigas, assistiam a tudo sem desvanecer nem sucumbir.

Naquela noite suja ela sentiu saudade das rosas, das suas rosas. *Andava a toda velocidade pra superar a saudade que andava junto, esta saudade era das rosas, coisas mais lindas do meu jardim.

[...]

* Trecho editado da música "Saudade de Rosa", autoria de Gery Campelo e Bartô Galeno, lançada e interpretada por Bartô Galeno entre as décadas de 70 e 80.

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