Quero o repouso da verdade,
a certeza de que terei ao meu lado
o conforto de sinceros amigos.
Ainda ontem, lendo uma edição de “Caros amigos”, me deparei com um intrigante texto de um escritor para mim ainda desconhecido, o paulista Ferréz. Escritor marginal, morador de periferia. Através de seu texto “Sincericídio” Ferréz me abraçou e me se fez íntimo comigo.
Suas palavras contundentes mas esperançosas me encheram de otimismo e de um companheirismo há muito não experimentado. Sua prosa é ágil, dinâmica e cheia de verdade, árida e de poder de veracidade letal.
Lido o texto não pude deixar de lembrar Wilde e sua definição de vaidade, sua apresentação da derrocada do culto que fazemos a nós mesmos. Do amor de Doryan por Sibyl Veyne, por suas inúmeras facetas shakesperianas, do questionamento de quantas representações cabem em nosso corpo, as pessoas feias, a vaidade, a ausência de vaidade em muitas pessoas ditas feias.
Os seres despidos de vaidade apresentam-se mais a vontade nos ambientes, deixam de ser escravos, libertam-se do cárcere, fogem do comedimento e se deixam vazar de si para si. Não usam máscaras. Eles se apresentam nus. Conforme Barthes: "se aberram livremente segundo a verdade do desejo”.
Sempre analisei a vaidade sob o ponto de vista de Wilde como uma contestação às mentiras sociais. Enquanto leitores temos o direito de fazer nossas inferências particulares, que podem fugir aos protocolos exagerados e rígidos dos críticos e intelectuais / literatos. Partindo daí possibilito-me configurar um paralelo delicado entre a vaidade de Wilde e as verdades de Ferréz.
Entendendo a mentira como sinônimo de vaidade permito-me um pouco mais: se a verdade muito nua não excita os homens, então talvez a mentira seja a carta de alforria dos viventes, e o sincericídio a saída para quem já está cansado.
*Expressão do escritor marginal Ferréz, que define o constante suicídio em massa a que somos submetidos diariamente com as mentiras e máscaras necessárias à nossa sobrevivência social.
