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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Cuide de você

Outro dia, numa visita ao Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, tive o privilégio de assistir à exposição de uma artista plástica francesa chamada Sophia Calle.
Sophia utilizou um email de rompimento que recebeu do então namorado como ferramenta para desaguar suas emoções latentes. Tirou cópias desse email e distribuiu a 107 mulheres diferentes, escolhidas pela diversidade de suas profissões, para que elas analisassem a carta, cantassem, dançassem, fluíssem, esgotassem em fim aquelas linhas que a destruíram, dilaceraram tão covardemente seu coração. A carta terminava com a seguinte frase “Cuide de você”.
Tais reflexões no museu, lendo e acompanhando as análises e descobertas que essas mulheres fizeram sobre o texto endereçado à Sophia me fizeram pensar mais, refletir mais uma vez acerca da fragilidade das relações humanas.
Meus desvarios me levaram longe, até mesmo à instituição do casamento,o que me fez crer que ele deva ter sido criado numa tentativa de fazer com que as pessoas entendam mais seriamente e se sintam mais incontestavelmente responsáveis por outra pessoa previamente escolhida.
Em plena primeira década do século XXI os relacionamentos se tornam cada vez mais frios, fortuitos, bem como as mulheres cada vez mais frígidas e os homens mais acuados. Agravando essa situação, que já me parece por demais absurda, paralelo a todo esse marasmo caminha uma tal internet, acompanhada de um tal de endereço eletrônico, mais conhecido como email.
MSN, orkut, twiter, facebook e mais trocentas ferramentas à disposição de quem quer que seja na internet não passam de lobos em pele de cordeiro. Verdadeiras destruidoras de relações humanas. Sophia que o diga, e eu confirmo.
Dissemos adeus aos cortejos à janela, nunca mais nos interessamos pelos bilhetinhos escondidos nas páginas dos cadernos, as canções tocadas na viola para conquistar as moças já não são mais cantadas. Tudo acabado, tão apagado na memória de boa parte das pessoas que viveu tão lindas recordações (e olhe que não sou tão velha assim, mas eu vivi!). Tudo tão esquecido num canto qualquer da memória, como se não tivesse valor, como uma peça gasta que, depois de muito uso, é repassada ou jogada fora.
Ah que saudade do tempo em que a conquista era parte importante do processo e das pessoas, ah que saudade do cheiro de rosas no quintal e dos paqueras passeando próximo ao portão.
Saudade de um tempo em que um namoro não começava pela internet, começava com um olhar, de um tempo em que as fotografias serviam para guardar lembranças, não para serem descarregadas numa máquina para depois serem deletadas, sem a menor emoção, sem o menor sentimento nem cuidado em se ater aos momentos vividos no ato do flash.
Adeus bilhetinhos de amor, olá invasiva, desalmada, inapropriada e anti-romântica internet.

4 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Haydée Ferreira disse...

Amei Denise! Você é das minhas!Realmente, eu que só de outro tempo que o diga! Mas precisamos mesmo cuidar de nós mesmo e inverter os atuais valores. Só o fato de perceber essa atual realidade e contestar já a faz ser diferente. A gente muda o mundo mudando a nós mesmas, contestando, comentando e ajudando as pessoas a pensarem melhor e acordarem para a beleza da vida. Vá em frente! Continue escrevendo e dando a sua pacela de contribuição para fazer esse mundo melhor!
Amei lhe conhecer mais um pouquinho!

Denise Veras..ღ ټ ... disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isíssima disse...

É certo... E não me envergonho de dizer que um advento da internet ainda espero por cartas perfumadas e rosas... Brega não é? rsrsrs Pra mim não... "Adoro a poesia das coisas simples"

Lindo post flor!!!