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terça-feira, 25 de maio de 2010

Toda forma de amor é contrariado*

Já faz algum tempo li uma entrevista concedida pela jornalista Marília Gabriela à revista semanal Istoé, entrevista essa em que foram debatidos assuntos como amor e fidelidade, dentre outros que, na ocasião, não me despertaram tanta atenção. (Isto foi em 2007. Considerando a explosão caótica das informações nos veículos de comunicação na atualidade há de se julgar que o texto que aqui me refiro pode ser considerado antigo).
Com uma interessantíssima citação do escritor Albert Camus, Marília conseguiu despertar em mim a vontade de refletir sobre esses temas.
No livro “Heróis absurdos” Albert Camus discorre a respeito da personagem fictícia Dom Juan de Marco e afirma de maneira solta, desinteressada e romântica: “Dom Juan vive trocando de paixões não porque não ame, e sim porque ama demais.”
É a plenitude na definição do ato de amar!
Seguindo essa definição, certamente muita gente já se sentiu um Dom Juan, não apenas um conquistador, mas um eterno amante apaixonado pelo amor. Aquele que ama pelo ato de amar, vê beleza no fazer amor. A conquista, o primeiro toque, o primeiro contato e toda aquela enxurrada de emoções provocada por esses sentimentos.
Volúvel? Não. Amante que de tanto amar só quer mais e mais amor. É incapaz de vivenciar algo em que não exista amor.
Nesse momento, afogada por essas linhas me descobri uma vertente de Don Juan. Parafraseando Drummond: “[...] Este é o nosso destino: amor sem conta [...]”.
E se o nosso destino é amor, então, porque não amar?
Admito a dificuldade em aceitar o conceito de amor sem conta. Caímos no constante risco da mágoa, na armadilha preparada pelo socialmente imposto, isso porque a maior fatia da esfera social, não está preparada para o amor livre.
Roberto Freire em seus livros defende o que ele batizou de “Amor anarquista” que, a meu ver, não difere do “Amor sem conta” de Drummond, ou mesmo do “Amor contrariado”, de Albert Camus. São todos amores livres, que buscam a satisfação de si e da própria alma, alimentando-os com amores de diferentes estirpes que nem por isso deixam de ser amor.
Ao longo da vida agregamos valores e experiências adquiridas com companheiros e, quando possível, amantes. Alguns muito, outros nem tanto, nos envolvem e/ou se deixam envolver.
A existência vai se desenrolando assim, nessa busca insaciável por suprir a eterna carência de mais e mais amor.

* A frase que dá título ao texto pertence ao escritor francês Albert Camus, em seu livro “Heróis absurdos”.

1 comentários:

Haydée Ferreira disse...

Denise, querida! Achei muito interessante essa sua crônica e muito boa para dela fazermos uma boa reflexão. Eu, particulamente não acho que toda forma de amor seja contrariado, porém em certos pontos o amor deve ser livre e sem conta. Permita-me fazer alguma observações de como vejo o amor:
Amar, na verdade é a sina de todo ser humano. Não apenas esse amor físico a lá Don Juan, ou amor livre ou amor contrariado. Amar, apenas amar completamente é a nossa sina. Nascemos para amar, para ser amor, porque possuímos o sêlo do nosso criador. Nascemos mirando o infinito, como se avistasse uma luz capaz de preencher toda nossa sede e necesidade de amar e sermos amados. Nascemos desejando ser um com o Amor Supremo
Lógico, que como seres humanos que somos precisamos de aconchego,carinho, abraços, contatos fisíco. Precisamos ser desejada, querida, amada. E mais que tudo somos atraídos a ser um com uma outra pessoa. Procriar e povoar a terra. O amor físico entre dois seres também é supremo, quando vai além do fisíco. Dai, amar implica responsabilidade, respeito, fusão completa não só de corpos, mas também de alma. Amar é saber perder, é aceitar o outro como ele é. Amar de verdade vai além do físico, mais muito além. Quem ama apenas pelo ato de amar, pode até amar demais, ser aparentemente livre. Só que como beija-flor que voa de flor em flor, um dia cansa e se ver só e vazio por dentro.Por acaso já viu algum Don Juan Feliz e realizado?
Olha, Ao meu ver a nossa sede de amor é bem mais profunda do que esse amor amante. O que desejamos é um amor que vá além! Um amor sem conta, mas que tem raiz na essência da alma.
Pense nisso!
Parabéns! E obrigada por me ajudar a refletir.

Haydée Ferreira
www.haydeeferreira.com.br